Quase um ano depois de receber milhares de leitores para a Bienal do Livro, o Riocentro voltará a abrir espaço para debates sobre leitura, escrita e circulação de conhecimento. Desta vez, porém, os livros estarão cercados por plataformas, tecnologias, pesquisas e discussões sobre o futuro da energia. A estreia da Energia Literária na ROG.e – maior festival de energia do planeta, que será realizado entre 21 e 24 de setembro, no Rio de Janeiro – parte justamente dessa aparente contradição para revelar uma conexão antiga: a indústria de energia também é feita de leitores, autores e promotores de conhecimento.
A relação pode parecer improvável à primeira vista. Afinal, o setor é tradicionalmente associado a temas como engenharia, geociências, inovação e infraestrutura, mas a leitura e a produção de conhecimento estão no centro dessa atividade. Todos os anos, profissionais da indústria produzem artigos científicos, relatórios técnicos, livros, normas e pesquisas que ajudam a impulsionar a evolução do setor. Para os idealizadores da arena recém-criada, a proposta é justamente ampliar esse olhar, mostrando que a literatura também pode ser uma ferramenta de formação crítica, criatividade, troca de experiências e construção de repertório.
“O nosso setor é um grande incentivador do livro e da cultura, apoia feiras literárias e também é um grande consumidor de literatura. Este é um setor que produz muito livro técnico e muita pesquisa. Então, nosso setor já está literalmente atrelado à literatura, e a literatura, ao nosso setor”, reflete Eduarda Tamate, Analista de Editoria e Conteúdo do IBP e uma das responsáveis pela curadoria da Energia Literária.
Eduarda explica que a proposta da arena é ampliar a compreensão da literatura para além dos formatos tradicionais, incorporando manifestações orais, ancestrais e marginais, além da produção de artigos, publicações e oficinas de escrita. Segundo ela, a iniciativa nasce da valorização de todo o ecossistema que envolve ler, escrever e publicar.
A aproximação entre literatura e energia, porém, não ficará restrita à Energia Literária. Na véspera da programação da arena, o escritor Itamar Vieira Junior, autor de Torto Arado, participa do café literário que encerra o Fórum de Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I) da ROG.e. O encontro é resultado de uma experiência iniciada no Clube do Livro do IBP, que escolheu a obra para leitura e debate entre representantes da indústria, transformando uma discussão surgida entre leitores em uma conversa ampliada com o próprio autor.
A presença de Itamar ajuda a ilustrar a proposta mais ampla do festival: criar conexões entre literatura, cultura e temas que também atravessam o setor energético, como diversidade, território, identidade e desenvolvimento social.
Essa mesma visão se reflete na programação da Energia Literária. Inspirada no formato de bienais, feiras de livros e fóruns culturais, a arena reunirá, no dia 24 de setembro, cafés literários, atividades práticas, encontros com autores, lançamentos de livros, sessões de autógrafos e debates sobre temas como publicação, território, memória, cultura e escrita técnico-científica.
Entre os participantes confirmados estão Luiz Antonio Simas, escritor, professor e historiador; Verônica Marcílio, cofundadora do Favelivro; Rhuann Fernandes, sociólogo e pesquisador; e Suzana Vargas, fundadora do Instituto Estação das Letras (IEL), que acredita que a leitura ajuda profissionais de áreas altamente especializadas a desenvolver repertório, criatividade e uma visão mais ampla dos impactos de suas decisões.
“Essa é uma aproximação não só importante como necessária. A técnica é importante, mas nos endurece muito. A literatura devolve às pessoas o senso de humanidade, a percepção até nas suas decisões, que precisam ser técnicas, sim, para que as coisas funcionem a favor do Homem”, defende.
Em um setor acostumado a transformar conhecimento em pesquisas, artigos e publicações técnicas, a Energia Literária também propõe uma reflexão sobre como esse conhecimento pode ganhar novas formas de circulação e alcançar públicos mais amplos. Para Alberto Monteiro, Analista de Editoria e Conteúdo do IBP, a iniciativa simboliza a consolidação de uma relação que já existe entre a indústria, a leitura e a produção intelectual, mas que agora encontra um espaço próprio para se expressar dentro da ROG.e.
“Eu acredito que a Energia Literária nasceu para celebrar um papel que o IBP já exerce há algum tempo, especialmente no incentivo à leitura, como vemos, por exemplo, no Clube de Leitura. Mas também nasceu com o propósito de ser um espaço literário com o objetivo de transformá-lo em uma ferramenta de difusão do conhecimento e transformação social”, explica.
Confira a programação completa aqui.