Em um momento em que a transição energética leva muitos jovens a questionarem o futuro do setor de petróleo e gás, as projeções para o mercado de trabalho contam uma história diferente. Impulsionado pelo início da produção em novos campos, o setor estima gerar 483 mil empregos em 2026, um crescimento de quase 38% em relação ao ano anterior. Diante desse cenário, surge uma pergunta: “quem vai ocupar essas posições?”.
É nesse contexto que o Young Summit, evento paralelo da ROG.e voltado ao diálogo entre diferentes gerações de profissionais, abre espaço para uma discussão que vem ganhando força não apenas na indústria, mas também entre as novas gerações: ainda vale a pena apostar em uma carreira no setor de petróleo e gás?
Segundo Rachel Lopes – mestranda no LAGESED/UFRJ, integrante do Comitê Jovem do IBP e uma das responsáveis pela curadoria do painel “Ainda há petróleo no futuro?”, do Young Summit -, a proposta foi promover uma discussão mais realista e estratégica sobre o futuro do setor, ajudando os jovens a tomarem decisões de carreira com base nas oportunidades e transformações que já estão em curso na indústria.
“Estamos acompanhando não só um mercado, mas uma realidade e uma sociedade em que a demanda de energia vem crescendo cada vez mais. Então, não podemos nos dar ao luxo de acreditar que tudo o que construímos hoje caiu após anos de indústria; que, de um dia para a noite, não vai ser mais necessário”, explica.
Para a geóloga, o que acontece é justamente o contrário: o mercado de energia está passando por uma grande transformação, que necessita de tecnologias que a acompanhem e de pessoas que tenham essa capacidade de se adaptar e de trazer novas ideias com base no que existe hoje.
“Eu acho que isso (a programação) dá a chance para todo mundo poder conversar e conseguir planejar o futuro de uma maneira que seja possível realizar. Trazer os jovens para um lugar de acolhimento, para que eles possam perguntar, ousar pensar, ousar falar, tirar as dúvidas, para que eles consigam tomar decisões de carreira mais bem informadas”.
Rachel defende que a transição energética não reduz as oportunidades para os jovens profissionais, mas amplia a necessidade de aprendizado contínuo e atuação multidisciplinar. Em um mercado marcado pelo avanço tecnológico e pelo crescimento da demanda por energia, ela acredita que os profissionais precisarão transitar por diferentes áreas do conhecimento ao longo da carreira.
“Para quem quer, para quem tem essa vontade de aprender, de crescer, de ocupar os lugares, eu acho que o setor de energia é o lugar ideal”, conclui.
Essa percepção encontra eco na universidade. Para o professor da COPPE/UFRJ Diego Malagueta, embora algumas engenharias enfrentem uma redução na procura por parte de estudantes, a área de energia continua despertando interesse justamente por sua relevância econômica, tecnológica e ambiental. Na sua avaliação, os debates sobre segurança energética e transição energética mantêm o tema em evidência e ajudam a atrair novos profissionais.
Apesar de uma aparente incompatibilidade entre o segmento de Exploração & Produção e a transição energética, ele ressalta que existem conexões que podem trazer complementaridade. Uma das possibilidades de controle dos gases de efeito estufa (GEE), por exemplo, é pensar na captura e armazenamento de carbono, tecnologia que demanda conhecimentos já dominados pela indústria, como geologia de reservatórios, perfuração e operação de sistemas complexos. Segundo o professor, o conhecimento acumulado sobre geologia, reservatórios, bem como equipamentos e tecnologias de exploração e produção, podem ser usados, adaptados e servir como um V0 para a nova indústria.
“Eu acho que é mais fácil o setor de petróleo e gás começar a ocupar certos nichos da transição, como o da captura, do que chegarem empresas novas, setores novos, para ocupar esse espaço”, explica.
Malagueta destaca que o conhecimento acumulado pela indústria de petróleo e gás pode contribuir para o desenvolvimento de outras tecnologias ligadas à transição energética. É o caso das eólicas offshore, que compartilham desafios logísticos, operacionais e de infraestrutura com as atividades realizadas em ambiente marítimo, e da geotermia, que também se beneficia de competências já consolidadas em áreas como geologia, perfuração e gestão de reservatórios.
Segundo o professor, outro diferencial está na capacidade de investimento da própria indústria. Por ser um setor intensivo em capital, o petróleo e gás reúnem empresas com experiência na execução de projetos de grande porte e com condições de investir em tecnologias que devem ganhar espaço nas próximas décadas.
“Eu vejo espaço para complementariedade, principalmente se a gente desmistificar certos estigmas do setor”, conclui.
As transformações do mercado de energia e seus impactos para os jovens profissionais estarão no centro da programação do Young Summit, que acontece de 21 a 23 de setembro como parte da ROG.e 2026, o maior festival de energia do planeta. O evento será realizado no Riocentro, no Rio de Janeiro, entre os dias 21 e 24 de setembro.
Confira a programação completa aqui.